
Na tradição do circo, o clown começava sendo um
acrobata, malabarista ou trapezista, e depois, com o passar do tempo, não
podendo mais realizar os números no mesmo nível de qualidade, ensinava-os a
um jovem e tornava-se um clown.
Desde os anos sessenta manifesta-se um interesse pelo clown. Mas o
clown não está mais ligado ao circo: trocou o picadeiro pela cena e pela
rua. Muitos jovens desejam ser clowns; é uma profissão de fé, uma tomada de
posição perante a sociedade: ser esse personagem à parte e reconhecido por
todos, pelo qual sentimos um vivo interesse, naquilo que ele não sabe
fazer, lá onde ele é fraco. Mostrar suas fraquezas (as pernas finas, o
peito largo, os braços pequenos) e enfatizá-las usando roupas diferentes
daquelas que usualmente as ocultam, é aceitar-se e mostrar-se tal como se
é.
Numerosos
jovens em todos os países andam pelas ruas com três bolinhas, uma
cambalhota, uma parede invisível, querendo ser vistos. O fenômeno
ultrapassa a simples representação e seu espetáculo. Esse clown
"psicológico", que pode desenvolver uma pedagogia dramática,
necessária à liberdade do comediante, não é forçosamente um clown de
espetáculo e permanece no mais das vezes sendo um modo de expressão
privado. O pequeno nariz vermelho não basta para fazer um clown
profissional e a representação não deve ser uma exibição consoladora.
O clown exige também uma proeza, freqüentemente ao inverso da
lógica; ele põe em desordem uma certa ordem e permite assim denunciar a
ordem vigente: deixa cair o chapéu, vai apanhá-lo mas, desajeitadamente,
dá-lhe um pontapé e, sem querer, pisa na bengala que lhe joga de volta o
chapéu nas mãos. O clown erra onde não esperamos e acerta onde não esperamos.
Se tentar um salto perigoso, cai, mas o executa quando lhe dão uma
bofetada. Assim o clown Grock, escondido atrás de um biombo, conseguia
junglar com três bolas, só elas visíveis ao público, o que não conseguia
fazer perante o público.
O
clown toma tudo ao pé da letra, em seu sentido imediato: quando a noite cai
(bum!) ele a procura no chão e nós rimos de seu lado idiota e ingênuo. Se
alguém lhe manda tomar um ar ele quer segurá-lo com a mão. Todos pregam-lhe
peças. Alguém o manda abaixar-se e olhar para os pés: ele se abaixa e leva
um pontapé nos fundilhos; achando a piada "muito boa", vai
passá-la a um terceiro personagem; este lhe pede para mostrar como fazê-lo
e o clown recebe um novo pontapé deste novo personagem, que já conhecia a blague.
O pequeno
nariz vermelho, "a menor máscara do mundo", dando ao nariz uma
forma redonda, banha os olhos de ingenuidade e aumenta o rosto,
desarmando-o de qualquer defesa. Ele não causa medo, o que faz com que seja
amado por todas as crianças.
A
pantomima, outrora, desceu ao picadeiro do circo e deu ao clown o rosto
branco de Pierrot, que torna-se então o clown branco. O clown, hoje, é
sobretudo o augusto e, portanto, todos os cômicos do picadeiro.
Beckett
deu uma nova dimensão ao clown, fazendo com que ele descobrisse os altos
sopros da existência. O herói trágico tornou-se inabordável, e o clown o
substitui, "Esperando Godot"...
Clowns de teatro e clowns de circo misturam-se no Circo Alfred, na
Tchecoslováquia, com Ctibor Turba e Boleslav Polivka. Pierre Byland e
Philippe Gaulier, clowns de teatro absurdo, fazem um espetáculo, Os Pratos.
Cada país encontra seus clowns, o fenômeno é internacional, e não é o circo
que os faz nascer. Os jovens comediantes se reconhecem nesse mundo
clownesco que desenvolvem longe da imagem típica do clown de circo.
Essa busca de seu próprio clown reside na liberdade de poder ser o
que se é e de fazer os outros rirem disso, de aceitar a sua verdade. Existe
em nós uma criança que cresceu e que a sociedade não permite aparecer; a
cena a permitirá melhor do que a vida.
Esse caminho é puramente pedagógico e essa experiência serve ao
comediante para além mesmo da representação clownesca. Não basta, para um
clown de teatro, apresentar-se ao público fracassando naquilo que procura
realizar e com uma roupa típica e nariz vermelho. O clown profissional deve
saber realizar seus fracassos com talento e trabalho. Os clowns de teatro
fundamentam-se mais sobre o talento do comediante que sobre o do acrobata;
sem o nariz vermelho, eles animam um mundo geralmente absurdo e trágico. Em
companhias, montam peças curtas criando seus personagens a partir de si
mesmos, caricaturando a si mesmos.
In
"Le Théâtre du geste", org. de Jacques Lecoq, Ed. Bordas, Paris,
1987, pág. 117. Tradução de Roberto Mallet.
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